Trincas causadas por problemas na laje ou telhado

Roberto Massaru Watanabe
Roberto Massaru Watanabe
Roberto é engenheiro civil formado pela USP e especialista em patologias das edificações.

As trincas observadas nas paredes externas da casa ou edifício, mais comumente horizontais próximas ao topo ou inclinadas a partir do topo, podem ter origem em processos que ocorrem na laje de cobertura ou no telhado.

Trincas causadas pela dilatação térmica na laje

O principal motivo das trincas associadas à laje de cobertura é a dilatação térmica.

As trincas causadas pela dilatação térmica ocorrem quando há incidência de raios solares com produção excessiva de calor diretamente sobre a edificação.

Elementos como lajes, platibandas e muretas expostos aos raios solares estão sujeitos ao surgimento de trincas. Esse fenômeno é particularmente mais frequente durante o verão, quando faz muito calor, associado a uma tempestade de granizo, que resfria os elementos rapidamente.

Nessas trincas, pode ocorrer a infiltração de água da chuva.

Em dias quentes de verão, principalmente nas latitudes baixas, isto é, entre a linha dos Trópicos e do Equador, a laje de cobertura pode atingir temperaturas de 70º C ou mais, sendo capaz de fritar um ovo. O aquecimento do concreto leva ao fenômeno de dilatação. Da mesma forma, ao esfriar, sofre retração.

Abaulamento da laje

O concreto é péssimo condutor de calor, de modo que a parte de baixo da laje, mais interna, não esquenta tanto, produzindo uma grande diferença de temperatura, que chamamos de gradiente, entre a parte de cima e a parte de baixo da laje.

Esse gradiente de temperatura produz dilatação apenas nas áreas aquecidas, levando a um envergamento da laje, que fica com a forma abaulada (curvada para cima). 

Tal abaulamento da laje causa tensões desiguais nas paredes, desencadeando o surgimento de trincas.

O desenho a seguir apresenta o abaulamento de forma exagerada para fins didáticos:

A camada exposta ao sol dilata, enquanto a camada mais interna permanece igual, causando o abaulamento da laje
O leve arqueamento da laje produziu um giro na sua beirada, fazendo surgir uma trinca horizontal em toda a lateral do prédio

Em outros casos, como a laje está solidamente engastada nas paredes, ao dilatar e retrair, leva junto parte da parede. Então surgem trincas inclinadas, diagonais, nos cantos das paredes.

Dilatação/retração longitudinal com trincas inclinadas
Exemplo de trincas horizontais e inclinadas na fachada de edifício causadas pela dilatação térmica da laje de cobertura

São casos de difícil solução se desejarmos eliminar a trinca. Não havendo risco para a segurança e estabilidade das estruturas, pode-se pensar numa solução em que convivemos com a trinca e introduzimos elementos que ajudam a melhorar a estética da fachada.

Dilatação térmica de mureta na cobertura de edifício

Exemplo de trincas na mureta da cobertura de edifício causadas por dilatação térmica

Dilatação térmica de materiais diferentes (aço e concreto)

Os materiais possuem coeficiente de dilatação diferentes. Isto quer dizer que ao receberem o calor do sol, um deles vai dilatar mais do que o outro. Devemos levar em consideração este fato e permitir que os materiais tenham comportamentos independentes, sem que um afete o outro durante o fenômeno natural da dilatação e retração.

No entanto, certos materiais, como o aço e o concreto, têm comportamentos térmicos bastante diferentes, tornando muito difícil fazer com que dilatem e retraiam de forma harmônica. Como resultado, haverá a fragmentação do concreto, que é o material mais frágil.

Tampa metálica de caixa d’água de prédios

No caso a seguir, muito comum nos prédios, a tampa e a moldura da tampa da caixa d’água, sendo metálicos, possuem coeficiente de dilatação muito maior que a do concreto. Isso causa o surgimento de trincas no concreto ao redor da tampa.

A consequência mais grave dessas trincas é a infiltração de água da chuva para dentro do resevatório de água superior, levando junto sujeira e fezes de aves, e contaminando a água que os moradores e usuários do edifício usam para tomar banho e beber.

Exemplo de trincas ao redor da tampa da caixa d’água de edifício, causadas pela dilatação térmica do aço

Gradil metálico em cobertura de prédios

No exemplo abaixo, o perfil metálico do gradil foi fixado diretamente na mureta. Com a dilatação térmica do aço, a mureta trincou e soltou lascas. No caso, o gradil estava solto e uma pessoa que viesse a se apoiar poderia cair de cima do prédio.

Exemplo de trincas na mureta da cobertura de edifício causadas pela dilatação térmica de gradil metálico

Trincas causadas pela dilatação térmica no telhado

O telhado também sofre a ação da dilatação térmica. Durante o dia, com a exposição solar, o telhado esquenta e dilata, ficando maior. À noite, o telhado encolhe. Essa movimentação, ainda que discreta, causa tensão nos pontos de junção do telhado com a casa.

Dilatação térmica do telhado

Pontos de apoio do telhado

O efeito dessa tensão depende do sistema de apoio do telhado, que pode ser contínuo ao longo da parede, ou em determinados pontos, onde são instalados “aparelhos de apoio”.

Quando o sistema de apoio do telhado é falho, as trincas podem ocorrer. Tanto a dilatação térmica quanto a retração podem levar ao surgimento de trincas.

Trincas causadas pela dilatação térmica do telhado
Trincas causadas pela retração térmica do telhado

Os pontos de apoio do telhado nas paredes devem permitir movimentos horizontais de “vai-e-vem”. Isso é conseguido por meio do uso de vigas de madeira com graxa ou, em casos de cobertura de maior envergadura, apoios de neoprene com espessura calculada.

Direção da dilatação térmica

A forma da trinca vai variar dependendo de onde está ocorrendo o processo de dilatação e retração térmica.

Trincas causadas por dilatação térmica, com a parede na mesma direção da dilatação
Trincas causadas por dilatação térmica, com a parede na mesma direção da dilatação, com portas e janelas
Trincas causadas por dilatação térmica, com a parede na direção transversal em relação à dilatação

Ventilação do sótão

Se foi utilizada manta sob as telhas, as consequências da dilatação térmica podem ser agravadas. A manta não permite que haja renovação de ar dentro do sótão (espaço entre o telhado e a laje de forro). Como consequência, há acúmulo de calor durante o dia, que persiste durante a noite, e é dissipado através da laje de forro.

Telhado com manta acumula calor e piora efeitos da dilatação térmica

Sem manta e com o uso de telhas do tipo francesa, colonial ou paulista, que são do tipo de encaixar, o ar do sótão é renovado, o que impede seu aquecimento excessivo. Dessa forma, o telhado sofre menos dilatação e menos retração, ocasionando menos transferência de peso sobre as paredes.

Telhado sem manta permite renovação do ar no sótão

Trincas causadas por falhas na estrutura do telhado

Estrutura do telhado apoiado diretamente na laje
Estrutura do telhado apoiado diretamente na laje

Na foto acima, vemos pontaletes apoiados diretamente sobre a laje. Isso causa o surgimento de trincas no teto e nas paredes do quarto que fica logo abaixo.

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